Todas as nações têm as suas mentes iluminadas, os seus altos dignatários, os que tudo sabem e que o povo tem que ouvir atenta e servilmente. (eu até acho que há demais...)
É o caso de Jorge Miranda. Ele até admite que o homossexuais existam, mas agora casarem... Vinha no jornal: «Na sua opinião, “não pode invocar-se a norma que foi acrescentada no artigo 13 a respeito da orientação sexual como factor de discriminação”, uma vez que, sustentou, “não há factor de discriminação”» (in Público). Claro. Durante anos e anos e décadas e décadas e mais centenas de anos, os homossexuais nunca eram descriminados. A fogueira até era uma dádiva para eles para não poderem viver a sua vida normal. A História avança. desbloqueim-se velhas portas, abrem-se novas. Mas há sempre ferrolhos. Travões que não deixam prosseguir. Pessoas como Jorge Miranda, neste caso, fazem parte desse conjunto de ferrolhos. Claro que quando uma pessoa não pode arbitrar livremente a sua vida, amar quem quiser, sem nunca ofender as liberdades dos outros, essa pessoa está claramente a ser descriminada.
Prossegue Jorge Miranda: «“Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar com pessoas do mesmo sexo. O artigo 13 não envolve o direito de casar dos homossexuais”, referiu.». Parece aquela conversa do Ricardo Araújo Pereira imitando o Marcelo: "Pode-se fazer, mas é ilegal. Mas pode-se fazer." Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses (terão todos os cidadãos portugueses os mesmos direitos?...; isto, se calhar, já é outra estória...), menos casar. Ou seja, têm todos menos um. O que já é um adiantamento para a conversa que coloquei entre parêntesis. Jorge Miranda faz uma separação dos portugueses que têm direitos em várias patamares: os quem têm mais uns, e os que têm menos uns.
Por último, um breve comentário a mais esta frase de Jorge Miranda: «Por outro lado, a Constituição portuguesa, no seu artigo 36, sobre família, “distingue o direito de constituir família e o direito de contrair casamento”.». Já lá vão alguns anos desde que terminei a escolaridade obrigatória, mas ou muito me engano ou "distinguir" é diferente de "opor". Mas deixem-me lá ir ver... Do dicionário Priberam:
Distinguir
1. Não confundir.
2. Estabelecer ou conhecer a diferença que há entre pessoas ou coisas.
3. Ver claramente (ainda que de longe), avistar.
4. Perceber, ouvir.
5. Notar.
6. Marcar, assinalar.
7. Discriminar.
8. Caracterizar.
9. Fazer distinção (de pessoas).
10. Tornar-se distinto; assinalar-se.
Opor
1. Elevar contra.
2. Pôr em frente.
3. Pôr do outro lado.
4. Colocar como obstáculo.
5. Pôr (para formar contraste).
6. Objectar!Objetar.
7. Impedir, obstar.
8. Ser contrário.
9. Ser concorrente; ir a concurso.
De facto, e sem me levantar da cadeira, desfiz a confusão que já ia na minha cabeça. Afinal, sempre é verdade. Jorge Miranda não tem nenhuma razão para dizer que uma coisa substitui a outra. Elas não se opõem; distinguem-se. Mas os iluminados são eles, não eu. Portanto, perdoem-me a minha prosápia.
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quarta-feira, 17 de março de 2010
segunda-feira, 23 de março de 2009
E a saga continua...


Confesso que esta questão sobre a eleição do novo Provedor de Justiça não me suscita um interesse assim tão grande. E não me suscita esse tal interesse tão somente porque acho que é um cargo que não tem tido grande relevância na vida política e social portuguesa, para não dizer nenhuma. Desengane-me e contra-argumente quem saiba. Não tenho grande impressão do cargo, confesso. Porém, quero afirmar que poderia ser um cargo da maior importância para o país, não fosse o seu relativo apagamento da vida pública, quer na discussão política, quer na nossa comunicação social. Mas, hellas, não o é.
O que salta à vista de todo este processo é a intransigência de ambos os partidos do centrão em aceitarem as propostas um do outro. Confesso que quer Jorge Miranda quer Laborinho Lúcio não seriam as minhas escolhas, mas não posso dizer que os nomes sejam descabidos. Todo este processo está é a ser muito mal conduzido, com os nomes a virem para a praça pública e andarem a ser joguetes, duas pessoas conceituadas e respeitáveis, do centrão bicéfalo (e acéfalo, ao mesmo tempo) que temos. Eu diria que o problema é deles (de ambos os "candidatos"), mas creio que a sua sujeição a esta novela só os fragilizará na condução do cargo, se algum dos dois ainda estiver disponível -e com vontade- para o mesmo...
Só não há discussões quando se trata de mandar ex-governantes e apaniguados de ambos os partidos para as direcções das empresas públicas; aí o acordo é tácito. Ora pões tu um, ora ponho eu outro. E assim enchem os bolsos dos seus boys. Esses sim, gente de respeitabilidade duvidosa... Como aquela besta daquela figura sinistra que é Armando Vara... Entre outros... Muitos...
Este processo tem que terminar quanto antes. Não pela graça que eu ache a esta degladiação pública (e patética) dos dirigentes dos dois partidos do centrão, porque até me rio com vontade, mas pela degradação pública da imagem de duas pessoas que merecem mais respeito.
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